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TESTEMUNHO
A GESTÃO DA DÍVIDA ANGOLANA
Witness:
Marinela Cerqueira (ANGOLA)
I. CONTEXTO
Angola
é o terceiro maior pais a sul do Sahara e um dos países com as maiores reservas
de riquezas naturais especialmente minerais (4º produtor africano de petróleo).
É um país que vive em conflito interno, com a cumplicidade da participação em
acordos de paz enganadores há mais de 40 anos.
Este período
de guerra foi composto por quatro guerras. A primeira contra a colonização portuguesa
até ao Acordo de Alvor incentivado pelo fim do regime salazarista aos 25 Abril
1974, a segunda desenvolvida pelos três movimentos de libertação nacional signatários
de Alvor1 que durou até os Acordos
de Bicesse em 1991, a terceira gerada pela não aceitação dos resultados das
eleições supervisionadas pelas Nações Unidas e interrompida pelo Protocolo
de Lusaka em 1994 e a última gerada na sequência da anterior que perdura até
hoje.
Todas estas
guerras apoiadas por potenciais internacionais através da ingerência directa
como a invasão do regime do apartheid em 1974, e a participação directa de militares
e homens de inteligência (URSS e EUA). Na segunda guerra, a ingerência indirecta
foi realizada através da venda de armamento a ambas as partes do conflito (Governo
do MPLA e a UNITA) pela URSS e os países do G7 ainda na altura da guerra fria.
Finalmente a terceira e a quarta guerra criaram uma dívida militar sem precedentes
financiada ilegalmente através das ex - Repúblicas da URSS e por Multinacionais
obscuras retractadas pelo caso "Angolagate", e os diamantes e o petróleo
de sangue (ver relatório de 2001 da OXFAM).
Todas estas
guerras tiveram como consequência imediata o êxodo e a imigração das populações
provocando a fuga de quadros médios, superiores e de intelectuais reconhecidos
e da juventude. Certamente esta consequência aliada à nacionalização das unidades
fabris e comerciais e a atenção desmentida ao petróleo provocaram numa primeira
fase a paralisação da industria transformadora e produtiva. A curto e médio
prazo aliadas a crescente colocação de minas em todo território nacional provocaram
a paralisação da agricultura e impediram a livre circulação de pessoas e bens.
Estas
condições de trabalho reforçaram o ambiente propício para o aumento da quase
mono produção extractiva de dois recursos naturais minerais, o petróleo e os
diamantes. A economia de exportação bruta destes minerais foi criando espaço
para uma micro economia de importação que convive de forma regulamentada e de
forma livre contribuindo para o surgimento da corrupção.
A corrupção
predominante nos sectores do Estado expandiram ao nível dos quadros médios e
trabalhadores de base devido ao não pagamento e a actualização dos salários
da função pública provocaram o galopante desemprego de mais de 60% da população.
As únicas alternativas que a população encontrou a sobrevivência foram as doações
de instituições internacionais para a sua alimentação e as actividades comerciais
informais. Estas actividades são de baixo rendimento, provocando o agravamento
da pobreza da população. Actualmente mais de 67% vive abaixo da linha da pobreza.
Estes
indicadores não assentam apenas no factor guerra e na corrupção por esta gerada.
Ela não é a causa exclusiva da pobreza em Angola, embora a fase semi convencional
do conflito tenha terminado agora, o país continua a debater-se com uma guerra
de guerrilha debilitante, que continua a provocar deslocações maciças das populações,
a limitar a perspectiva de curto prazo para o regresso dos deslocados para as
suas áreas de origem e a impedir a recuperação dos sectores não petrolíferos
da economia (em Memorando do Sistema das Nações Unidas em Angola sobre o primeiro
esboço da Estratégia Interina de Redução da Pobreza elaborada pelo Ministério
de Planeamento de Angola em 2001). Quer dizer que devemos procurar as outras
causas, só nos resta a economia nacional assente na extracção bruta de minerais
e as políticas internacionais do FMI.
Os dois
últimos factores encontram-se estritamente ligados devido as políticas de reescalonamento
da dívida. Este indicador define Angola a nível internacional como o pior país
do mundo para uma criança nascer (em Relatório da Save The Children Fund - UK,
2000), em Luanda, em cada 100 metros se encontra uma criança da rua ( Relatório
da UNICEF 2002), órfã e ou mutilada por uma das milhares de minas que os mesmos
países que governam as maiores instituições credoras fabricam e vendem a ambas
as partes do conflito angolano, tornando Angola no pais com mais minas e mais
mutilados física e mentalmente do mundo. Este meio ambiente incentiva a prostituição,
a agressividade familiar posicionando o país com um dos índices de desenvolvimento
humano dos piores do mundo (146º em 2002).
Este índice de desenvolvimento humano
tem agravado nas duas ultimas décadas não obstante a tentativa de implementar
Programas informais de Ajustamento Estrutural com o objectivo de sanear a economia.
Estes programas foram desenvolvidos e monitorados similarmente aos outros países
africanos pela Instituição de Bretton Woods. Os mesmos a semelhança da maioria
dos países africanos têm-se tornando parte do problema e não a sua solução
devido principalmente a sua ortodoxia financeira e monetária que inclui a utilização
das desvalorizações como única medida de travar a inflação.
II. A DÍVIDA ANGOLANA
2.1. Magnitude
A Dívida
Externa de Angola em 2001 foi estimada em cerca de 11 biliões de dólares. Isto
significa 1,5 vezes mais que o PIB e cerca de 2 vezes mais que o nível de exportações
do país, cobertura que em 1994 representava 342%. Quer dizer que praticamente
cada angolano incluindo bebés, mutilados e outros grupos desfavorecidos devem
ao exterior 1.000 US$. O serviço da dívida ascende a cerca de 1 milhão e duzentos
mil dólares, cerca de 30% do OGE e corresponde a 100 US$ per capita, ou seja,
metade do salário de um técnico superior da Função Pública. Cerca de 10% da
dívida corresponde a "Juros com atrasados", o que indicia o facto
de uma grande parte da dívida corresponder a compromissos sem contrapartida
real. Em 1994 o serviço da dívida representou 56% do volume de exportações,
valor que baixou para 24% em 1998, percentagem que se estima que volte a subir
em 2001.
2.2 Estrutura
A
maior parte da dívida de Angola é bilateral e contraída a operadores privados.
Cerca de 40% da dívida é contraída pelo Sector Público Estatal. A origem da
mesma corresponde essencialmente a despesas militares, aos investimentos e as
despesas operacionais petrolíferas, a cobertura de investimentos mal concebidos
como a barragem hidroeléctrica de Kapanda, o Mausoléu de Agostinho Neto, a importação
alimentar e a recapitalização de atrasados. Uma parte da dívida petrolífera
é na realidade de carácter militar.
2.3 Evolução
Até
meados dos anos 80, a dívida externa de Angola (menos de 3 biliões de dólares
americanos) não tinha uma dimensão preocupante, quando o preço do barril de
petróleo veio a experimentar uma importante queda. Em 1994, entretanto, a dívida
ascendeu a 11 biliões de dólares americanos e nos anos seguintes até 1999 (estimativa)
ela teve a seguinte evolução: 11,7; 8,5; 8,6; 8,8; 9,6 biliões. A quebra deve-se
ao facto dum eventual "perdão" não assumido oficialmente de parte
da dívida militar a Rússia. No que diz respeito ao serviço da dívida, em 1998,
este correspondia a 37% dos rendimentos do petróleo equivalente a mais 18% que
em 1996. Se Angola pagasse a dívida total, isto é se não acumulasse os atrasos,
o serviço da dívida elevar-se-ia a 62% dos rendimentos do petróleo em 1999.
Neste ano se o preço do petróleo tivesse permanecido em 11 US$, o FMI estimava
que o serviço da dívida teria absorvido quase metade dos rendimentos do petróleo
(Relatório do Desenvolvimento Humano 2000, PNUD). Quer os juros atrasados, quer
o serviço da dívida são sempre crescentes desde 1994, com excepção do ano de
1999.
III. IMPACTO DA DÍVIDA
Angola
continua a ser confrontada com o que se poderá chamar "paradoxo da potencialidade".
Na verdade, Angola poderia ser um pais africano aonde a erradicação da pobreza
teria uma perspectiva viável a médio prazo. Contudo os indicadores sociais estagnaram,
as despesas sociais diminuíram (Relatório de Desenvolvimento Humano 2000, PNUD).
Estes resultados devem-se a utilização das receitas petrolíferas para o reescalonamento
da dívida e para o funcionamento da máquina de guerra que, conjuntamente, absorvem
mais de 60% das despesas do aparelho do Estado . Podemos aprofundar esta análise
a vários níveis conforme abaixo indicamos:
a) Economia
Dívida
e Reservas (poupança não realizada)
O
pagamento da dívida deixou o país sem reservas. Durante mais de 7 anos as Reservas
do país não chegavam, para os anos mais optimistas, um mês e alguns dias do
volume de importações. Isto quer dizer que o país não consegue constituir poupanças
por forma a constituir fundos para combater a pobreza e adoptar políticas estruturais
para o desenvolvimento.
Orçamento
Geral do Estado (OGE) e serviço da dívida
O
serviço da dívida é tão elevado visto que cerca de 28% da dívida angolana está
garantida pelo petróleo através de mecanismos segundo os quais as alterações
positivas do preço do petróleo reflectem em maiores pagamentos de dívida de
curto prazo. A economia acaba por ter poucos benefícios mesmo em conjunturas
favoráveis, denunciando a existência dum sistema financeiro estruturalmente
desfavorável aos países devedores. Por outro lado, o acentuado serviço da dívida
tem gerado défices sistemáticos na economia, cobertos através de emissão de
moeda no vazio, o que estimula a inflação e diminui dramaticamente o poder de
compra face ao facto dos salários não terem idêntico crescimento.
Dívida
e resultados no desenvolvimento
O
nível do investimento público em infra-estruturas, por consequência, é exíguo,
bem assim como os investimentos em capital humano, o que torna crítico o desenvolvimento
e a diversificação económica. O país não apresenta obras que possam ser consideradas
a contrapartida dos empréstimos declarados. O nível de crescimento tem estado
praticamente dependente do aumento da produção petrolífera. Mas este varia na
razão inversa do rendimento per capita mormente a partir de 1989 (Queda do Muro
de Berlim e aceleração da dívida externa).
b) Social
Angola
ocupa o 146º lugar no índice de desenvolvimento humano (IDH) juntando-se aos
países mais pobres do planeta. O país alcançou um índice de esperança de vida
de 0,28 em 1998 permanecendo nesta situação segundo dados estatísticos. Os angolanos
que sobrevivem estão afectados por uma taxa de analfabetismo que ronda os 57%
e convivem com meninos de rua, com uma insegurança alimentar (alimentando-se
com base em doações de farináceos) que certamente contribui para o agravamento
da saúde mental e física.
Gastos
parcos na educação e saúde
Por
via de regra os gastos conjugados da educação e saúde não chegam a 8% das despesas
do Estado, com excepção do presente ano de 2002 que face a pressão social foi
consignado 20% para o sector social, incluindo, assistência social. Desta percentagem
uma boa parte está destinada a despesas com militares, bolsas de estudo no exterior
do país e a uma camada privilegiada da população ligada aos meios governamentais
e sua "clientela (Christine Messiant).
A
dívida penaliza assim a grande maioria do povo que não tem acesso à educação,
nem à saúde. Angola apresenta as taxas mais baixas da África Subsaariana sobre
a alfabetização, a cobertura de saneamento básico, a água potável e a relação
doente/médico. (Relatório do Desenvolvimento Humano 2000 - PNUD)
Há
pois uma situação de empobrecimento absoluto causado pela dívida externa e um
empobrecimento relativo da maioria da população em função das políticas re-distributivas
injustas.
c) Causas e consequências
internas e externas da guerra
O empobrecimento gera descontentamento
e este estimula o desenvolvimento da guerra. A guerra é sustentada, por seu
turno, pelas fontes financeiras extractivas, nomeadamente, as receitas petrolíferas.
Paradoxalmente o contexto de guerra cria dificuldades ao acesso ao crédito normal
aumentando a magnitude dos juros. A economia angolana despende muitos recursos
para a guerra, acentuando o seu grau de militarização. Por exemplo, para cada
professor primário há pelo menos 2,5 militares (não é aqui balanceada a chamada
Defesa Civil2, nem a comunidade de Inteligência3, muito
menos as tropas rebeldes) e 7,2 militares por milhar de cidadãos, configurando
as relações mais elevadas em toda África Austral.
O
f acto é que a compra de armamento através de modelos sofisticados faz crescer
a dívida pois é preciso remunerar seriamente estes intermediários (corrupção)
como foi o caso do bloco 33 (pagamento do serviços prestados com a entrega de
blocos petrolíferos para exploração). Tais aspectos conduzem a maior degradação
do Estado e a existência de orçamentos paralelos, onde se registam despesas
e receitas extra-orçamentais.
Essa
degradação do procedimentos do Estado envolvendo-se com máfias para sustentar
a guerra com o fito do controlo exclusivo da riqueza tem sido penalizante para
Angola do ponto de vista da dívida externa, porquanto:
- os juros no mercado são dois pontos acima da taxa expressa
em libra inglesa,
- os prazos de pagamentos são curtíssimos, aumentando a magnitude
da dívida de curto prazo a Bancos e a gestores dos empréstimos e sendo forçado
a pagar a intermediários financeiros no caso em que os empréstimos, embora sob
cobertura e negociado através do petróleo não são propriamente para o sector
petrolífero (como o caso da compra de armamento). Angola, por essa via, participa
plenamente na especulação financeira e, por aí, se deduz que grande parte da
dívida não teve de facto contrapartida real.
IV. ANGOLA E AS INSTIUIÇÕES
FINANCEIRAS INTERNACIONAIS
4.1 Relações Angola FMI
As
Relações entre Angola e o FMI estabelecem-se com maior intensidade a partir
da década de 90. As dificuldades que a Balança de Pagamentos enfrentou a partir
de 1985 indiciaram a procura do FMI para a sua resolução. A conjugação entre
a baixa do preço do petróleo, a guerra e a péssima gestão (incluindo péssimo
emprego dos recursos) criou as condições do apelo ao FMI. As entidades governamentais
pretendiam ver reescalonado os compromissos assumidos e ter acesso a crédito,
necessidade acentuada dramaticamente pela queda do bloco soviético. A preocupação
geral do FMI foi criar em Angola uma economia compatível com a economia mundial,
rompendo a gestão anterior ancorada ao espaço soviético do ponto de vista da
lógica do sistema.
Angola
é membro do fundo mas até então não teve acesso a qualquer fundo ou reescalonamento
da sua dívida. O FMI tem influenciado a economia de Angola exigindo condições
prévias para beneficiar de "tranches", inclusive a exigência do pagamento
atempado do serviço da dívida. O Banco Mundial tem, por seu lado, financiado
investimentos sociais a taxas de juro baixas.
O
FMI tem executado missões de análise da economia angolana, deixando recomendações
para as autoridades económicas e sujeitando-as a avaliações de desempenho. Nos
últimos anos, de Janeiro de 2000 a esta parte, e como explica o Governo "O
elevado peso do serviço da dívida externa de Angola e a sua estreita relação
com os objectivos de estabilização macro económica e o relançamento da produção
interna de bens e serviços determinaram que o Governo celebrasse com o FMI e
o BM o Memorando de Políticas Económico-Financeiras do Governo (Programa Monitorado
pelo Corpo Técnico do FMI)" (E, Relatório de Fundamentação). Programa Monitorado
centrado em:
- no aprofundamento das reformas estruturais da economia (criação de
mercado financeiro; privatização da propriedade estatal; reforma do Banco Central,
deixando de exercer funções comerciais, limitando o Estado às funções administrativas;
liberalizando o comércio e adoptando o sistema de transparência);
- Na estabilização da economia através do combate à inflação, supressão
dos subsídios e subvenções; contenção do défice público; liberalização dos preços,
incluindo o da moeda estrangeira para permitir a redução da diferença entre
a taxa de cambio praticada no mercado oficial e no paralelo.
4.2 Posicionamento do Governo
Do
ponto de vista do Governo, o pagamento atempado do serviço da dívida externa
permitirá negociar com o Clube de Paris para obter novos empréstimos e reescalonar
a dívida. No OGE 2002, recentemente aprovado pela Assembleia Nacional, o Governo
afirma "O Programa monitorado, que integra metas quantitativas e medidas
estruturais, é um instrumento através do qual o Governo deve demonstrar um bom
desempenho na implementação de políticas macro-económicas antes de acordar com
o FMI um programa com recursos financeiros desta Instituição de Bretton Woods".
O Governo entretanto tem conduzido a execução do Programa com inteira salvaguarda
dos interesses de acumulação de capital e poder político para um grupo restrito.
Por exemplo, as privatizações recaem sobre pessoas seleccionadas, algumas das
quais conduziram as empresas públicas à falência.
As
reformas bancárias são lentas para preservar o controlo dos meios financeiros,
nomeadamente, das fontes petrolíferas, até que hajam alternativas de controlo
privado das mesmas fontes (criação de grupos financeiros privados, transferência
de fundos para organizações não governamentais sob estrito controlo; "empréstimos"
subsidiados a supostos empresários clientelistas que levou um Banco constituído
exclusivamente com capitais do BNA, Banco Nacional de Angola a CAP, Caixa
Agro Pecuária e Pescas a falência, bem assim como o financiamento de operações
comerciais e de investimento a baixas taxas de câmbio, etc).
Assim
a fraca capacidade do sistema monetário retracta-se neste débil sistema bancário
que incentiva a fraca cultura de poupança e a descapitalização do empresariado
nacional em detrimento de empresas de capital maioritariamente estrangeiro,
sendo a maioria empresas do sector petrolífero (caso Rigaud 2001).
No
que tange as medidas de estabilização, o Governo tem cumprido (embora não nos
prazos estabelecidos acautelando reacções populares) o Programa de liberalização
de preços e de supressão de subsídios o que tem permitido disparar a inflação.
Esta provoca de imediato a subida dos preços dos produtos de maior consumo como
os combustíveis (com efeito repercutido em quase todos os bens de consumo),
os transportes, a água, a electricidade num contexto de contenção dos salários
da função pública.
Estas
medidas têm igualmente provocado um incremento do desemprego e a reformas antecipadas
derivados do saneamento da função pública, das privatizações do sector público
estatal e da ausência duma verdadeira reforma económica na economia não-petrolífera.
Como o Governo não tem sido capaz de utilizar um pacote consistente de reformas,
regista-se igualmente no país uma enorme fuga de capitais através de processos
fraudulentos.
As
questões atinentes à transparência são as mais difíceis para Governo encarar.
Os relatórios de análise e de auditoria elaborados, com a cumplicidade do FMI,
não são de acesso público. Note-se que, só o ano passado, o Governo de Angola
publicou o Orçamento Geral do Estado. Não publica nem as Contas do Estado, nem
as das empresas públicas. O Tribunal de Contas recentemente implementado não
se encontra ainda em funcionamento.
4.3 Posicionamento do FMI
O
receituário do FMI visa encontrar as formas de governabilidade externa da economia
e não tem em conta as características específicas que a economia angolana desenvolveu
nos últimos anos. Ainda perduram na economia do país aspectos pré-capitalistas.
Não existe um sistema financeiro capaz de sustentar certas reformas. Há uma
sócio-economia agregada ao sistema de partido-Estado e a economia petrolífera
corresponde há um enclave, ou seja, há um conjunto de disfunções fundamentais
que tem que se levar em conta para qualquer programa económico centrado no homem.
As
medidas propostas pelo FMI não tem como ponto de partida e chegada o homem.
Daí as consequências sociais das medidas aplicadas, exigindo mais sacrifícios
a populações sujeitas há 40 anos de guerra, sendo que 1/3 é população deslocada
do seu lugar de origem com sérias dificuldades de se estabelecerem com estabilidade
em outros lugares e sujeitas a dependência para o seu sustento.
Juntamente
com o Banco Mundial e respondendo à pressão internacional em Angola as IFI estão
a tentar implementar o PERP (Programa Estratégico de Redução da Pobreza) estreitamente
vinculado a satisfação da dívida externa. De facto o Governo advoga "...
o presente Programa do Governo é também, portanto, um programa transitório,
pois só no ano 2002 é que se estima seja finalizada a preparação do Plano do
Governo de Médio Prazo, que deverá integrar os elementos do Documento de Estratégia
de Redução da Pobreza (PERP) e, provavelmente, dar-se início a negociação de
um programa com o apoio financeiro de instituições financeiras internacionais,
designadamente o Fundo Monetário Internacional e o banco Mundial, com base no
PRSP, que permitirá a renegociação da dívida externa do país, nos Clubes de
Paris e Londres, com vista ao seu reescalonamento para libertação, no curto
prazo, dos recursos indispensáveis ao financiamento sustentado do desenvolvimento
nacional", o que demonstra que a formulação do PERP está intimamente relacionada
com a Dívida Externa e que, em complemento, toda a estratégia e programa do
Governo estão condicionados a problemática da dívida.
4.4 Posicionamento das Nações Unidas
O
Governo apresentou uma proposta de PERP interino que foi criticado pelo próprio
sistema das Nações Unidas em Angola que advoga o seguinte:
- O Governo não está sendo claro sobre as suas responsabilidades
na assistência humanitária; "deveriam ser tomadas medidas para assegurar
que qualquer estabilização macro-económica e reformas estruturais não agravem
a situação das populações mais vulneráveis" inclusive defende que "a
subvenção de certos produtos, tais como o petróleo iluminante (no espaço de
6 meses sofreu incrementos superiores a 100%) e sal ionizado, que são essenciais
para a sobrevivência dos pobres, deveria ser mantida";
- Deverá dar-se prioridade à agricultura camponesa, como opção
estratégica, e inverter a tendência da concentração de terras;
- Reordenação das prioridades orçamentais para os sectores sociais
e prever o acesso à água e saneamento básico as populações;4
A
conclusão elementar é que há nítida contradição entre o Programa Monitorado
pelo FMI e as perspectivas apontadas pelo Sistema das Nações Unidas para a elaboração
do PERP. Uma contradição que o Programa do Governo resolveu em benefício das
políticas restritivas do FMI para juntar dinheiro para pagar a dívida externa.
Por isso é não só compreensível o atraso do Governo na formulação duma estratégia
de redução da pobreza mas a marginalização que faz dos sectores da sociedade
civil que devem participar plenamente neste processo.
4.5 Posicionamento da Sociedade
Civil Angolana
A
Liga Jubileu 2000 Angola - LiJuA2000 respondendo aos anseios da sociedade civil
de participação num combate que lhe diz respeito, organizou já um workshop sobre
o PERP e criou grupos de trabalho para darem continuidade as formas de concepção,
gestão e monitoria da Estratégia.
A experiência
tem demonstrado que o Governo tenta marginalizar as intenções da sociedade
aliando-se aos sectores internacionais como a Agências das Nações Unidas, O
FMI, o Banco Mundial e as agências de países estrangeiras interessadas no PRSP.
Há uma nítida aliança de bloqueio para impedir uma participação real da sociedade
e mantê-la apenas como mero apêndice das reais estratégias governamentais, visando
acumulação de capitais para um sector restrito da população e "resolvendo"
de forma malthusiana a problemática da população pobre.
O
workshop visou igualmente motivar o governo a integrar a participação da sociedade
civil na elaboração do PERP e estimular as IFI a entabularem contactos com a
sociedade.
Uma
das grandes preocupações da sociedade civil consiste em verificar que o Governo
e as IFI pretendem um PERP sem questionar a divida externa, ou seja, sem operar
o seu cancelamento.
Também
não pretendem operar qualquer alteração ao Sistema Financeiro internacional
mantendo o ciclo de dependência através do mecanismo do juro e do sistema de
pagamento da divida. É esta visão que a sociedade civil pretende que seja integrada
na elaboração do PERP.
V. INTERLIGAÇÃO INTERNA
EXTERNA
Há
uma interligação interna e externa na gestão da dívida angolana conforme abaixo
se descreve:
- a dívida externa e desequilíbrio interno
O desequilíbrio externo (dívida) estimula dois desequilíbrios internos,
a inflação, via forma de cobertura dos défices e a degradação monetária, face
a manutenção do enclave petrolífero, provocando a polarização da economia. Ambos
os desequilíbrios beneficiam quer o exterior, quer sectores governamentais.
- Acresce o facto de que a negociação de empréstimos
estar sujeita a consabidos processos de corrupção por parte de funcionários
bancários, via comissões, permitindo negociações desfavoráveis ao país por incremento
da dívida. Os processos acima apontados, designadamente, a existência de intermediários
sem carácter, a forma de garantia petrolífera, os prazos mínimos e as taxas
acrescidas são processos que vêm aumentando a magnitude da dívida mas que não
afecta antes pelo contrário os rendimentos dos sectores internos preponderantes
que têm na questão das relações externas vantagens pessoais.
- A relação das Instituições Financeira Internacionais
(IFI) com o Governo vai no sentido generalizado de estimular processos antidemocráticos,
restringindo a formulação de política a círculos meramente governamentais. Em
Angola há inclusive sugestões para certos técnicos não integrarem as comissões
de estudo com o FMI. As organizações internacionais com o pretexto de que o
Governo é que deve abrir mão da participação da sociedade civil ignoram as pretensões
destas e evitam qualquer tipo de diálogo. Contudo, referem cinicamente nos seus
relatórios que elaboram a participação da sociedade civil e colaboram em todas
as farsas visando folclorizar a sobredita participação.
- As políticas concretas sob orientação do FMI têm
agravado o fosso entre ricos e pobres em Angola. O Relatório do PNUD (2000)
refere que esta tendência é crescente desde 1992. Tal permite aferir que o resultado
das políticas têm estimulado o Governo a adoptar medidas antisociais.
VI. CONCLUSÕES
O Governo
de Angola a não promover esforços para mudar as imposições instituições financeiras
nomeadamente o pagamento do serviço da divida
A
guerra e uma gestão de marginalização nos resultados da economia da maioria
da população tem conduzido o povo angolano a uma situação de estrema dificuldade
social. A divida externa tem servido como factor constrangedor quer para resolver
os problemas que evitam a morte por fome e de doenças já extirpadas no mundo,
quer para permitir a poupança mínima paro o desenvolvimento. Pelo contrario,
estimula uma gestão da coisa publica com corrupção, de beneficio a sectores
minoritários e antidemocrática, situações que são estimuladas pela forma como
as IFI influenciam as políticas do pais.
Por
isso os grupos vulneráveis de Angola, constituídos por crianças, mutilados de
guerra, mulheres e pobres constituindo a maioria da população, sem acesso a
educação, a saúde., ao saneamento básico e a oportunidades políticas acusa as
IFI e o Governo de Angola pela situação degradante em que se encontram.
O G7+1 Por nele estarem
integrados países que estimularam a guerra em Angola no período da guerra fria,
com a venda de armamento, assistência militar e inteligência não tem mostrado
actualmente interesse em encontrar uma solução política para o conflito; manterem
um sistema financeiro que duplica os juros, especula financeiramente, fazendo
os Angolanos pagarem o que não usufruíram; permitirem que a corrupção campeie
com graves incidências no nível de vida das populações.
VII. ANEXOS
VIII. ACRONIMOS
| ADRA |
- Associação para o Desenvolvimento Rural e Ambiente |
| BNA |
- Banco Nacional de Angola |
| CAP |
- Caixa Agro Pecuária e Pescas |
| DFID |
- Department for Foreign and International Development |
| EUA |
-
Estados Unidos de América |
| FMI |
- Fundo Monetário Internacional |
| FNLA |
- Frente Nacional de Libertação de Angola |
| GURN |
- Governo de Unidade e Reconciliação Nacional |
| IDH |
- Índice de Desenvolvimento Humano |
| IFI |
- Instituições Financeira Internacionais |
| MPLA |
- Movimento Popular para Independência de Angola |
| OGE |
- Orçamento Geral do Estado |
| ONU |
- Organização das Nações Unidas |
| OXFAM-UK |
- Organização Não Governamental Britânica |
| PERP |
- Programa Estratégico de Redução da Pobreza |
| PIB |
- Produto Interno Bruto |
| PNUD |
- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento |
| PRSP |
-
Poverty Reduction Strategy Programme |
| UNICEF |
- United Nations Children Fund |
| UNITA |
- União Nacional para Independência Total de Angola |
| URSS |
- União das Repúblicas Socialistas Soviéticas |
IX. BIBLIOGRAFIA
- Banco Nacional de Angola - Boletim
Estatístico 1996-2000
- Boletim Estatístico 1996-2000, Banco
Nacional de Angola
- Construir o Futuro em Angola , Fátima
Roque 1997
- Development Workshop Angola - Report
2001
- DFID - Luanda Urban Poverty Program
Reports
- Estratégia Interina de Redução da
Pobreza 2001-2003, Ministério do Planeamento
- Fátima Roque - Construir o Futuro
em Angola , 1997
- Filomeno Vieira Lopes - A Dívida
Externa de Angola: Comunicação. ADRA
- Global Witness - Press release
- Governo da Unidade e Reconciliação
Nacional (GURN) - Balanço preliminar do Programa do Governo (Out. 2001)
- Governo de Unidade e Reconciliação
Nacional - Programa do Governo para 2002
- LiJua2000 - Workshop on Civil Society
and Poverty Reduction in Angola, Luanda, 21-23 November/01
- Memorando Sobre o PRSP Interino 2001,
Nações Unidas
- Ministério das Finanças de Angola
- Orçamento Geral do Estado
- Ministério do Planeamento - Estratégia
Interina de Redução da Pobreza 2001-2003
- OXFAM - Humanitarian Situation in
Angola 2001
- PNUD - Políticas de Redução da Pobreza
2000
- PNUD - Relatório do Desenvolvimento
Humano Angola 1999
- PNUD - Relatório do Desenvolvimento
Humano Angola, 1999
- Políticas de Redução da Pobreza 2000,
UNDP
- Save The Children Fund - UK, Relatório
2000
- Sistema das Nações Unidas em Angola
- Memorando Sobre o PRSP Interino, 2001
- Tony Hodges - Angola from Afro-Stalinism
to Petro-diamonds Capitalism
1 Pela parte angolana
o Acordo foi assinado pelos seguintes movimentos de libertação: FNLA, MPLA e
UNITA. A FNLA abdicou da guerra em 1971, permanecendo o conflito entre o MPLA
e a UNITA.
2 Milícias
3 Polícia secreta
4 Memorando do sistema das Nações Unidas
em Angola sobre o Projecto de Texto do documento de Estratégia de Redução da
Pobreza PRSP Interino, pg. 1 a 3, Maio 2001.
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